artigo de opinião, publicado em 19.12.2006, no site do Jornal de Negócios, http://www.jornaldenegocios.pt/default.htm, autor Pedro Dionísio
“Nos últimos anos tem começado a surgir nas escolas portuguesas a abordagem ao tema da ética empresarial. Pessoalmente, considero ser absolutamente necessária esta abordagem da ética na Universidade e dedico, todos os anos, uma a duas aulas sobre este tema.
No entanto, esta posição não é unânime e ainda esta semana um colega me dizia que "ele nunca tinha tido ensino de ética na Universidade, mas tinha aprendido a ética em família" e foi mais longe dizendo que, por exemplo, "era incapaz de roubar, não pela penalização, mas porque isso, desde a sua infância, violentava completamente os seus valores".
Embora compreenda esta posição não estou de acordo com ela, porque a sociedade mudou, muitas famílias estão destruturadas, outras vezes os pais não cumprem o seu papel e os sinais, recebidos pelos jovens, de permissão de condutas reprováveis são cada vez mais em maior número nomeadamente nas escolas e sobretudo nos media.
Os (bons) sinais encontram dificuldade em serem reconhecidos pelos jovens no meio do "ruído" da informação com que são bombardeados e poderão não ser acompanhados pela força necessária para que os mesmos sejam imbuídos no seu "código genético social".
Numa das aulas dedicada a este tema na cadeira de "Negociação comercial", termino uma apresentação de slides com a frase "os compromissos negociados devem ser sempre cumpridos... só tenho direito a não cumprir o negociado, após o acordo da outra parte". Ao serem questionados sobre a sua concordância relativamente a esta frase, existe unanimidade.
Para testar a verdadeira concordância, pergunto aos alunos se, ao terminarem a licenciatura e depois de terem aceite um compromisso com uma PME fora de Lisboa, recebessem um aliciante convite de uma grande empresa, o que decidiam fazer?
A verdade é que a unanimidade desaparece e as opiniões são diversas. Esta falta de consenso resulta do entendimento da ética mudar, quando vista em abstracto ou a "nosso favor" onde é de fácil aceitação, enquanto ser ético não é fácil, quando vai contra os nossos interesses imediatos.
A ética deve servir sobretudo para pautar os nossos comportamentos nos momentos difíceis. Aproveito, por isso, o exemplo anterior para mostrar as implicações de eventuais comportamentos não éticos sobre o próprio aluno e sobretudo sobre a instituição que representam.
A verdade é que as questões sobre a fronteira da ética nem sempre são pacíficas.
Para os jovens futuros profissionais, a prática empresarial é também um sinal importante para os seus futuros comportamentos profissionais, já que eles tenderão a seguir a prática ética instalada e a conformar-se com a mesma.
A propósito, aproveito para expressar a minha opinião sobre um exemplo de prática de "marketing" que, em meu entender, coloca questões éticas. Neste momento, está a passar na televisão uma campanha da TV Cabo com, entre outras, a seguinte mensagem: "Pai, só 4 canais não dá. Vou bazar, tchau". Ou seja, para aumentar as vendas da TV Cabo, é ético passar a mensagem que não haver TV Cabo em casa é um motivo válido para a mulher e para o filho deixarem a casa?
Sei que, em publicidade, é normal utilizarem-se figuras de estilos e hipervalorizações, mas neste caso, e para os meus padrões de ética, foi-se longe demais, em termos de deturpação de valores de família, com um campanha que se dirige também a jovens e crianças com menor capacidade de relativização.
Acredito que a campanha funcione, mas considero que não vale tudo!
Comentário
Esta notícia fala-nos da importância da ética nos nossos dias e levanta uma questão pertinente: afinal o que é ser ético? Ser Ético é agir de forma correcta, sem prejudicar os outros. Quando se fala de ética, fala-se em valores como a honestidade, a integridade. Mas será que para sermos éticos, temos que ser ensinados, ou isso já devia ser considerado como dado adquirido?
É aqui que reside a polémica. Enquanto que o autor do artigo considera importante falar sobre esta questão, e defende que esta é uma disciplina que deve ser dada nas universidades, um seu colega discorda e defende que a ética se traduz nos valores que lhe foram incutidos pela família. Neste caso também se pode perguntar: E se a família se descurar deste papel? E qual o papel da sociedade na emissão de valores?
Além disso, penso que há outro aspecto muito importante a ter em conta que é a personalidade de cada um. É certo que há medida que crescemos, convivemos com muitas pessoas e elas também influenciam os nossos valores e a nossos comportamentos.
Em relação às empresas, será certo associar o sucesso ou fracasso de uma organização ao seu comportamento ético? A tendência é para que sim. Até porque fica bem ser ético, dá bom-nome à empresa e é uma óptima estratégia de marketing. Há até quem defenda que ser ético, hoje, não é mais uma opção para pessoas e organizações, é questão de sobrevivência.
Independentemente de ser ou não necessário falar neste tema, com mais ou menos frequência, nas universidades e nos meios de comunicação social, a atenção que devemos dispensar-lhe é aquela que achamos necessária.
No que diz respeito à campanha da TV cabo, pessoalmente achei até bastante engraçada e nunca tinha pensado nas questões éticas que esta levanta. Penso que ninguém vai sair de casa por não ter TV cabo. Se fosse esse o caso já eu teria “bazado” da minha casa há muito tempo. Mas nunca se sabe o que pode acontecer. O que é certo é que a frase que na publicidade vale tudo, assenta aqui que nem uma luva.
No final deixo-vos uma pergunta: Acham importante a inclusão da cadeira de ética empresarial no nosso curso??????????
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
1 comentário:
"Notícia Inválida" por ausência de conteúdo ou ligação ético-profissional.
Enviar um comentário